Arrecadando 106 milhões de dólares em míseras 24 horas, o sexto filme da série surge sob toda a polêmica que um filme da já mais lucrativa franquia de todos os tempos exige. Resta-nos aguardar os números das duas megaproduções que ainda estão por vir. O filme teve uma campanha publicitária poderosa e insistente, principalmente devido ao polêmico adiamento (o filme teria sua estreia em novembro de 2008, inicialmente) que sofrera, causando a ira em milhares de fãs ao redor do planeta.
O filme começa realmente tocante para quem sabe o que está por vir, para quem sabe do assassinato. Uma rápida volta ao caos no Ministério da Magia do filme anterior revela que será valorizada a relação quase paterna entre os personagens de Radcliffe e Gambon.
Então começamos a descobrir as conseqüências da desastrosa revelação do quinto filme: o caos que Voldemort consegue causar no mundo (seja entre bruxos ou trouxas), pondo abaixo a ponte Millenium, em Londres, e explodindo estabelecimentos do Beco Diagonal. O início impressiona pelo zelo técnico das cenas, com câmeras rápidas que viajam pelos cenários como comensais da morte, se esvaindo em fumaça como tinta negra em água. Os efeitos especiais surpreendem, sendo aproveitados até em tecnologia IMAX 3D (somente 12 minutos, infelizmente), embora a cena seja relativamente singela, no que tange ao pavor que propõe. Não há violência, não há carros imersos, não há mortes, apenas sugestões.
A montagem toda dessa introdução foi uma jogada esperta, já que o conteúdo funciona perfeitamente no suporte cinematográfico, causando o impacto que a mera citação no livro referente já causa.
Cumprida a função de uma introdução devidamente chocante, somos levados à cena que traçará o conteúdo do filme inteiro: os hormônios à flor da pele, mais poderosos ou preocupantes do que qualquer montante de fumaça negra capaz de desabar pontes e seqüestrar vendedores. Harry parece frequentar diariamente uma pequena cafeteria subterrânea, onde se vê encantado com a garçonete, hesitando uma chance de chamá-la para sair. Dispensando o perigo que o filme evidencia ser sair de casa ou as notícias dos comensais que aterrorizam o país, ele se mostra desapontado quando percebe não ter alguma oportunidade para sair com a dita garçonete.
Dumbledore conduz Harry para um vilarejo distante, sob o empolgante efeito da desaparatação, que consegue causar o embrulho no estômago até do espectador. Lá, Harry colabora com o diretor na missão de trazer um velho mestre de Poções de volta à atividade. Muito fiel, a cena não deixa de lembrar o espírito que Chris Columbus apregoou aos primeiros filmes, do quão bela é a arte de fazer magia, combinado ao saudosismo das fotografias. Tal aspecto já passara a corriqueiro na série, mas quando Dumbledore organiza a casa de Slughorn (Jim Broadbent) inteira com um mero movimento de varinha, volta à tona o quão impressionante ela pode se mostrar, mesmo após cinco filmes.
Contudo, os hormônios estão aflorando, e Harry anseia pelos amigos. Dumbledore deixa o garoto na Toca, que está completamente diferente da Toca que conhecemos. No meio de um alagado, a casa dos Weasley se ergue, torta e cheia de cômodos retorcidos. O protagonista corre para o abraço da que, a essa altura todos já sabem, será quem o beijará em algum momento. Se em algum instante parece bonita ou romântica a cena de Gina distante, na janela, o clima é completamente distorcido quando as personagens se oferecem, sem qualquer hesitação, sem algum desenvolvimento emocional. É tudo tão óbvio que é impossível se empolgar com a relação. Pessimamente adaptado, o teor romântico juvenil perdura como mera comédia a la besteirol americano durante o filme inteiro.
Harry se vê apaixonado pela caçula dos Weasley, mas não se preocupa de vê-la beijando outros garotos, não tem iniciativa alguma e o que deveria ser o clímax da relação se transforma numa fração de segundo com os lábios se encontrando, uma mera provocação da personagem de Bonnie Wright, que se mostra um tanto mais descontraída, e até mais dominadora. Harry é passivo ao extremo, e se fosse só em suas relações amorosas isso não incomodaria tanto.
Rony também arruma uma namorada este ano, a grudenta e romântica Lilá Brown (interpretada fielmente por Jessie Cave). A relação tem o único propósito de alimentar o romance do garoto com Hermione. Lilá é insegura e ciumenta, absurdamente possessiva, enquanto Hermione confunde-se entre a racionalidade e a sensibilidade, embora a personagem no filme tenha sido distorcida, mostrando-se atirada e depressiva, claramente disposta à disputa por Rony. Tudo é mal desenvolvido e irritantemente óbvio, como no caso de Harry e Gina, a diferença é que a função é propositadamente cômica.
Entre Poções de Amor, cantinhos escuros de pegação e noites a dois na ala hospitalar, o enredo baseia-se na tentativa frustrada de contrapor equilibradamente tensão “hormonal” e a pavorosa missão de Malfoy como comensal da morte: matar Alvo Dumbledore.
Hogwarts não tem mais aspecto de escola, imponente e respeitável como antes. É um espaço descolado e protegido, impenetrável. Esquece-se o que está acontecendo lá fora, tudo é flores quando se está satisfeito com os impulsos da adolescência.
Harry é conduzido por Alvo Dumbledore em rápidas e complexas cenas onde descobre como prosseguir para destruir o Lorde das Trevas, que matou seus pais, deixando algumas questões importantes abertas, para serem explanadas apenas no próximo filme. As poucas cenas de memórias que o roteiro concebe mostram-se de extrema importância, já que o diretor sintetiza tudo em explicações ralas e ligeiras. As três (sendo duas pertencente à mesma memória) foram muito bem conduzidas, com roteiro conciso e atuação admirável. Hero Fiennes e Frank Dillane conseguem o baque sombrio e atraente de Voldemort com perfeição.
O elenco é o ponto forte do longa, embora haja alguns lamentáveis retrocessos. Dos adolescentes, Dan Radcliffe e Tom Felton mostram que evoluíram admiravelmente, este trocando o antigo pateta Malfoy por um jovem amedrontado, hesitante, e aquele trocando o heroico Harry por um garoto mais irônico, descontraído, e até galanteador. A combinação de Felton ao lado de Rickman surge com perfeita harmonia, os dois juntos simplesmente dominam a cena.
Dentre ao adultos, sem maiores avanços, temos um aumento participativo considerável de Helena Bonham Carter, como a diabólica Belatriz Lestrange, e uma exigência maior de Alan Rickman, embora este não tenha a chance de mostrar tão bem as faces de seu personagem, o que deveria ser o foco do longa. Gambon está tão épico quanto se espera, remetendo imediatamente à imagem de Gandalf (de Senhor dos Anéis, a trilogia), embora falhe nas cenas de tensão. Parece não ter a energia que os fãs designam a ele desde Ordem da Fênix quando seu personagem sofre uma terrível tortura causada pelo consumo de uma poção de Voldemort, embora suas cenas afetivas com o protagonistas sejam maravilhosas.
Com o enredo mal amarrado, mal organizado como um todo e incoerente em si próprio, o filme aproxima-se de Cálice de Fogo como uma sucessão de cenas rápidas sem os conectivos que garantam uma certa harmonia ao telespectador. A transição de comédia romântica para tragédia é destratada, falhando com o propósito de um equilíbrio que dê jus ao final trágico.
O roteiro se mantém fiel à obra no que não diz respeito ao romance e à trama principal, há muitas dicas para importantes fatos dos próximos filmes e há algumas jogadas inteligentes do roteirista, onde ele consegue compactar perfeitamente uma boa quantidade de informação em uma cena que aborde mais de uma temática. Isso combinado aos focos seletivos da câmera, ora localizando Malfoy pensativo em algum nicho escuro do castelo ora viajando os dinâmicos cenários selecionados torna o filme agradável em sua técnica.
Com ambientes ousados e exageradamente amplos, a direção de arte traz uma cenografia competente, que dá liberdade para a câmera irrequieta de Yates vaguear aos mais diferentes ângulos que alcance, causando dinamismo e proporcionando maior aproveitamento do potencial dos atores.
O figurino não chega a impressionar, permanecendo com as cores vibrantes para as festas e alguma liberdade para os alunos, mostrando-se repetitivo de um modo geral. No entanto, é importante atentar que a técnica acompanha a carga emocional das cenas. No beijo de Rony, as cores são todas muito quentes, acompanhando o clima de descontração da vitoriosa partida. Nas cenas da penseira, há a preocupação com algo fraco e destoado, que siga a tendência nostálgica de memória.
A trilha sonora se mostra ausente e repetitiva, embora tenha sobrado pouco do Hedwig’s Theme de Williams para a abertura. Nas cenas de terror, a trilha de Hooper é falha, não correspondendo ao momento, e no momento heróico ela repete faixas já utilizadas em larga escala. Com uma empolgante faixa em coral, a trilha se mostra realmente vibrante no discurso de Dumbledore, no início de ano letivo. Há de se elogiar, portanto, a cena em que Harry e Dumbledore se preparam para partir em busca da horcrux, em que a atuação séria de Radcliffe e Gambon mescla-se perfeitamente com a melodia rápida que conduz ao momento clímax, tornando aquele penhasco uma cena de fato épica. Mais daquilo nas cenas do interior da caverna teria realmente enobrecido uma passagem com tamanho potencial.
Enigma do Príncipe teria alcançado uma quase perfeição se houvesse uma preocupação fiel, ou ao menos cabível, com o enredo, algo que não soasse cafona e batido. Steve Kloves voltou à franquia melhor, mais sensato e perspicaz com os cortes, e Yates teve um legítimo avanço ao levar em conta valores dos diretores que o precederam, trazendo maior fidelidade e respeito à obra, embora seu mérito seja a técnica apurada e inteligente para cinema. Esperemos algo com proporções realmente grandiosas para Relíquias da Morte Parte I e II, mas não podemos fingir que a produção dos longas seja a melhor para compreender a trama original.

Quanto ao filme, achei até bom. Não perdôo o corte do funeral, ou a troca da visita aos Dursley pela paquera a uma garçonete, assim como das memórias sobre os Gaunt e Hepzibah Smith. Se eles queriam realmente fazer uma comédia romântica (como apontado por alguns), deveriam investir melhor nisso... o que não fizeram. A maioria das coisas ficou sem nexo e acho que, apesar de tudo apontar para este ano da série, EdP não era em si o melhor ano para focalizar a adolescência, pois haviam outros temas mais "urgentes", como a introdução de Harry à busca das Horcruxes e a própria morte do diretor... eram coisas fortes demais pra se misturarem num filme em que a 'explosão de hormônios' era o tema central, mesmo que a intenção fosse uma quebra de tanto suspente e uma pontada de humor.
ResponderExcluirQuanto a ser forte, achei o filme bastante emocionante. Algumas cenas realmente tocaram, como o olhar da Srª Weasley ao ver sua casa destruída, Hermione se lamentando com o Harry sobre o Ron, a morte do Dumby, entre outros. Senti um pouco de falta do Próncipe e DCAT, obviamente... afinal, Snape (inegavelmente um dos personagens mais importantes da série) conseguiu finalmente seu cargo almejado.
Enfim, há muito o que comentar sobre Enigma do Príncipe, pontos positivos e negativos. Mas, em suma, acho que o filme não ficou assim tão ruim, tendo cenas altamente cômicas (McLaggen lambendo os dedos de forma insinuante para Hermione foi ótimo!) e outras extremamente trágicas. Óbvio: odeio a Warner... mas dá pra agüentar o filme. =)